RESENHA – A biografia de Hannah Arendt

As biografias não são todas iguais. Afinal, é impossível que haja algum tipo de construção imparcial e puramente descritiva dos fatos da vida de alguém. As biografias são formas de criar uma narrativa acerca de uma personalidade – ou melhor, são formas de criar e recriar uma personalidade. O interesse do biógrafo é sempre o de defender alguma ideia sobre o biografado, seja ela boa ou ruim.

As melhores biografias são aquelas que nos permitem vislumbrar uma faceta ainda desconhecida ou pouco explorada de uma pessoa. O livro de Samantha Rose Hill certamente se encaixa nessa categoria, pois, além de analisar episódios bastante peculiares da vida da pensadora, dos ambientes que ela frequentou, das pessoas com que conviveu e dos impactos que essas ligações tiveram (dieta ou indiretamente) em seu pensamento, a biógrafa consegue nos mostrar uma pensadora liberta, criativa, independente, capaz de pensar originalmente os problemas do aqui e do agora, de maneira a nunca filiar-se cegamente a qualquer perspectiva teórica ou ideológica. Aliás, foi essa cegueira, segundo nos conta Hill, que, na análise de Arendt, levou Heidegger a participar de atividades nazistas.

É essa vontade incansável de repensar a condição humana e o mundo que nos cerca que constitui o principal testamento de Arendt para o nosso tempo. E é por isso que a sua obra tem ganho cada vez mais relevância no cenário cultural. Ainda que algumas pessoas queiram filiá-la a alguma escola de pensamento, ou mesmo queiram criar, com base em seus conceitos, uma base sólida de pensamento (o que Samantha Rose Hill condena veementemente), é paradoxalmente sua insubordinação a modelos prontos e engessados de filosofar que mantém sua atualidade e capacidade de dialogar com os tempos futuros. Sua lição não é atemporal no sentido de que estabeleceu respostas universais. Sua lição é atemporal porque estabeleceu uma postura diante da realidade; postura essa que permite, em diferentes tempos e espaços, às pessoas lidarem de maneira adequada com a complexidade inesgotável do mundo.

O grande mérito, então, dessa biografia recém-lançada em língua portuguesa (com a fluída e atenta tradução de Juliana de Albuquerque, que teve muito cuidado com as palavras e os fatos utilizados no original) é o de servir tanto para aqueles que querem conhecer a obra e vida de Hannah Arendt quanto para aqueles que já a conhecem bem. O público ainda não especializado terá uma excelente base e chave de leitura para se acercar aos livros de Arendt; o público especializado, por sua vez, terá a oportunidade de revisar e repensar visões já estabelecidas sobre a escritora.

Resenha escrita pelo influenciador literário José Roberto de Luna Filho, do perfil Afinidades Eletivas.

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